Sábado, Julho 04, 2009

Naquele dia resolvi sair porque estava bem humorado. Já não lembro mais por quê, mas presumo que todo bom humor denuncia algum motivo. Chamo o elevador e ele chega rapidamente. Nele havia duas menininhas com seus cerca de sete, oito anos... sei lá! Já não sei identificar a idade média pela aparência há muito tempo. Mas as duas me deram boas razões para se despreocupar quando elas também tiveram graves dúvidas quanto a minha faixa etária. Assim que entrei no elevador elas olharam para mim sorrindo. Gosto de brincar com a garotada fazendo uma caretinha simpática e rindo para elas, geralmente gostam da receptividade, mas nesse dia um evento aconteceu.

- (Uma delas me olhou de cima a baixo e aos cochichos com a outra perguntou) É adulto?!?

- (Eu que tinha ouvido, respondi com voz meio infantil) Eu sou criança! É que eu cresci só um pouquinho mais. Mas sou igualzinho a vocês, também gosto de brincar.

Elas se entreolharam sem muito entender e riram muito. Não sabiam bem se eu era adulto, mas também ficaram perplexas com a minha reivindicação em ser criança. Olharam novamente com mais cuidado, analisando-me de cima a baixo, e eis a primeira conclusão:

- Você não é criança coisa nenhuma (muitos risos!)...

- Mas por que não, ora bolas!?

Elas pensaram, pensaram. A porta do elevador se abriu de repente e antes que as duas saissem correndo, uma olhou para mim e disse aquilo que eu não esperava jamais do alto dos meus vinte e sete anos:

- Você é no máximo adolescente!

Por um instante fiquei sem saber se ria ou se ficava preocupado. Ri.

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* Estou relendo O Pequeno Príncipe de Saint-Exupéry, e por causa disso me lembrei desta situação ocorrida comigo há poucos dias aqui no prédio.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

A Simetria

Ele pensava uma coisa, ela pensava noutra. Ele queria isso, ela insistia naquilo. Se uma hora era aquilo, ela tratava por isso. Quando desvirava, ela já não fazia questão... Ela quando ia, o outro retornava. Quando ela se tornava, o sujeito contornava. Se ela pede arrego, ele não dar nenhum sossego. Se contempla o tempo a só, ele senta logo ao lado. Se um deles não aguenta e logo diz que vai embora, os dois já não têm dúvidas e lá se vão com a mesma mala. De tão confusos eu já nem sei pensar um fim. Que se resolvam em tal destino, vai saber se nem tão ruim assim...

Já não pertenço a esta intriga.

Segunda-feira, Maio 18, 2009

A confusão (versão Beta)

Pairou uma confusão no fundo do nosso poço. Estive pensando e, talvez por isso, este texto também seja muito confuso, quiça somente bobo. Minha mãe certa vez me disse que o espírito do homem só vive por conta da necessidade de reconhecimento. É também alimento. A gente vive para ser reconhecido pelos outros. Fiquei matutando a questão. De fato, isso constitui algo elementar, talvez o mais, na construção da identidade social, diriam antropólogos nos jornais. Do ser aprovado, do ser lembrado, quiça admirado - sempre. Tudo isso de forma pública e notória, caso contrário, morremos de desgosto, não suportaríamos imaginar nossa tumba sem flores, ou vermos nossos corpos servindo a uma aula de anatomia nada especial, a não ser que fosse para demonstrar à humanidade que, através de uma prova orgânica, em vida tínhamos sido seres mais sofisticados que os demais. Muito menos imaginarmos sermos admiráveis (quanta petulância, ele-a se acha!) sem que ninguém reconhecesse isso em nós. Quantas HQ's e filmes de heróis servem para esta demonstração? Creio que todos. Certamente muitos fenomenólogos e hermeneutas não verão novidade alguma nisso, e realmente não há. Mas não quer dizer que não seja intrigante. Uma coisa incomoda alguns nisso tudo, a exemplo do chileno - quase um mito - Victor Jara, quando este faz referência ao ego efervescido que monumenta a confusão que criamos ao lidar com a busca do popular, do ser popular, e nos rendemos a uma série de vaidades. Popular para ele é uma coisa e popularidade é outra, acho que concordo. A certeza que fica é que essa coisa do reconhecimento é bem íntima desta última, e seduz até aqueles mais anônimos. E minha tese é que é ai onde mora a matriz da desigualdade. Cada dia que passa me sinto mais convencido de que é desses fenômenos que nascem os "modelos", aquele tipo de coisa que nós devemos seguir/sermos para não nos sentirmos ultrapassados e nem sermos auto-abandonados em uma sorte vagabunda. Acho que Foucault já constata isso há muito tempo em sua microfísica do poder - espero que não esteja lhe assassinando, penso até em reler. Mas ainda não sei se realmente quero ter minha tumba desertada e já nascida abandonada. Talvez queira usar minha capa de herói com forte odor de naftalina em algum momento mais oportuno.


*Já leu a HQ ou assistiu a sua adaptação no filme Watchmen? Vale a pena!
*Recomendo essa leitura sobre um baiano fantástico e realmente popular:

Domingo, Março 29, 2009

O maior perigo dum indivíduo para consigo mesmo é fazer da solidão um vício. É deixá-la se entranhar esfomeada na rotina da gente que, de tal maneira, torna-se relativamente simples dizer que não se consegue mais viver sem ela. De modo que qualquer tentativa descuidada em contrário é outro passo para o abismo. Quando passa a ser a mais fortuita companheira nas três refeições... É oito ou oitenta, ou a gente se pede em casamento ou pede logo o divórcio.

* Acabei de assistir "O Cheiro do Ralo", dirigido por Heitor Dhalia.
Foi o efeito. É o que me passa na cabeça após o filme.

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009

...Eu sempre achei. Mas ela nunca me viu. Por isso, nunca pude dizer.


eis um dado de campo da antropologia urbana. Ouvi de alguém.
Vivo em clave de sol. Mas gosto mesmo é da chuva.

Quinta-feira, Novembro 27, 2008

Quem se acha livre demais não é nada além de um cretino.
Se Deus nos tivesse feito perfeitos, certamente não teríamos a boca.

Terça-feira, Novembro 18, 2008

De algumas regras de sobrevivência: quem sente menos se machuca menos e vive menos. E Guimarães Rosa adverte a saúde: "Viver é muito perigoso".